É dificil escolher uma empresa para inaugurar este blog. Uma opção óbvia seria a Hypermarcas, o grande fenômeno do momento. Atuando em diversos segmentos como farmaceutico, higiene e limpeza, cuidado pessoal, alimentos é como se anda dizendo por aí uma espécie de Unilever nacional. A estrategia de crescimento foi investir na aquisição de marcas de grande valor que estavam abandonadas como Bozzano, Gelol, Assolan, Monange só para citar algumas. Isto foi possivel porque nos anos 90 as multinacionais usaram uma estratégia agressiva de compra de empresas concorrentes como forma de garantir ou ampliar a sua participação de mercado em diversos segmentos: molhos prontos de tomate, detergentes, shampoos, lacteos, biscoitos e muitos outros. Por algum tempo a estratégia funcionou, mas passado alguns anos muitos dos negócios adquiridos foram revendidos ou abandonados. Assim marcas tradicionais como Cica, Odd, Bozzano foram aos poucos desaparecendo das prateleiras do supermercado. Pois bem, aí entrou a Hypermarcas revitalizando muitas delas. Um outro caso interessante é da Maguary, que foi vendida para a Kraft Foods, e agora está sendo recuperada pela CBB em parceria com a Dafruta, numa revolucionaria volta às origens. Estes fenômenos foram possíveis no Brasil, na minha opinião, por um grande equívoco estratégico de multinacionais como a Unilever ou a própria Kraft. Numa época de euforia da globalização e muito capital em circulação apostaram fortemente em marcas mundiais muito fortes e que a aquisição de empresas tradicionais locais seria o caminho mais eficiente e rápido na implantação desta estratégia, inclusive em categorias onde tradicionalmente não atuavam. Como o caso da Maguary, para a Kraft. Mas os custos desta estratégia foram elevados demais, a liquidez do mercado não era mais a mesma e os resultados operacionais muitas vezes ficaram bem abaixo do esperado. Por outro lado o famoso marketing global, com campanhas de produtos de consumo feitas para serem veiculadas mundialmente, não se mostrou tão eficiente quanto o esperado. E hoje está sendo revisto. Por isso vemos por aí tantas campanhas de multiancionais com Robinhos, Ronaldos e Giseles... loucas para associar sua imagem ao espírito de brasilidade, ou de qualquer outro país onde atuem. Resultado: marcas tradicionais, top of mind, como a Bozzano, ficaram disponíveis no mercado. Por outro lado empresários tradicionais recomeçaram os seus negócios nos segmentos que já atuavam, criando novas empresas que rapidamente conquistaram participação de mercado, como é o caso da Da Fruta, criada por Silvia Tavares de Melo, um dos fundadores da Maguary em 1953.
Este movimento no Brasil, por causa do famoso jogo de cintura do empresario brasileiro associado a um mercado interno em expansão, é bastante interessante para quem gosta do mundo de negócios produtivos. Em alguns setores como produtos de limpeza, por exemplo, por mais que as multinacionais ou fundos de investimento adquiram empresas brasileiras, acabam sempre surgindo novas empresas para ocupar este espaço. E isto acontece, neste momento, por um processo que eu chamaria de algo como "desglobalização", porque no fundo o consumidor é mais diversificado, do que as melhores pesquisas de mercado podem detectar, e conhecê-los mais de perto, talvez seja a grande vantagem competitiva das empresas nacionais.
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